A semana já tinha se passado, chegou o final de semana resolvi sair com os amigos da época de colégio.
— Alô, o Fabio está?
— Só um momento! Fabio —, gritava seu pai enquanto o chamava
— I ae moleque, o que tu quer?
— Fala cara, pensei em chamar a nossa galera, pelos velhos tempos de escola, tá afim?
— Opa demorou, quem vai?
— Eu, você, o Daniel e o Mauricio! Vamo?
— Claro, posso levar a minha mina?
— Quem diria tá namorando então? Pode sim, me espera na frente da sua casa.
Depois de despedir-me dele, peguei as chaves do carro na bolsa da minha mãe e sai com ele.
Era um Renault Logan, enquanto dirigia para as casas de meus amigos, soltei uma leve risada imaginando a piadinha do porta-malas, já que nos comerciais do carro diziam que era o carro com maior porta-malas entre os sedans.
A última casa era a de Fabio, ficava perto da Av. Kennedy, chegando lá, estava ele segurando a mão de sua namorada.
— Own, que fofo! —, Daniel tirou a cabeça para fora enquanto falava.
— Fica quieto aí! —, Fabio respondeu dando sua boa e agradável gargalhada.
— Essa daqui é a Suzane. —, apresentou sua namorada para nós.
— Prazer, sou o Rafael!
— E eu, o Daniel!
— Mauricio, ao seu dispor madame!
Após sermos apresentados, fomos ao shopping jogar uma partida de boliche.
No meio do caminho conversamos sobre as futilidades pós-escola, se além de mim mais alguém havia tirado carta, se tinham ingressado em alguma faculdade, essas coisas.
Chegamos ao shopping, e perguntei se queriam comer algo.
— Eu aceito —, disse Suzane.
Então comemos na Subway, e o que mais observava era o modo como Fabio envolvia Suzane com os braços, as brincadeirinhas carinhosas que os dois faziam e até mesmo as trocas de olhares. Via como ele estava feliz, conheço-o desde os tempos de infância e nunca esteve tão feliz quanto naquele momento.
Enquanto isso, Daniel e Mauricio, conversavam sobre garotas, e discutiam sobre filmes de ação. Depois que todos nós estávamos satisfeitos fomos ao boliche e para a nossa sorte não havia fila de espera.
— Uau, a Suzane deu sorte! —, exclamou Mauricio.
— É verdade, sempre que a gente vem aqui fica lotadaço. —, assentiu Daniel.
Logo, chegou nossa vez, e de cara já percebíamos quem era bom no boliche, eu era o pior de todos, e Suzane era a melhor.
— Eu e meu namorado jogávamos bastante —, disse ela, e Fabio mais do que depressa olhou-a fazendo biquinho e com um olhar tristonho.
— Mas ele é passado, meu amor! — disse ela, abraçando-o em volta de seu pescoço e lhe dando um selinho.
Não sei se era a questão de ser um amigo meu, mas pela primeira vez fiquei feliz em ver aquela cena, eu sempre achava essa coisa de namoro e suas brincadeiras muito cafona. Mas de alguma forma aquilo começava a fazer algum sentido para mim, e confesso que até fiquei com uma inveja de meu amigo.
As rodadas foram se passando, e em meio de brincadeiras e zoações já era hora de irmos embora.
Levei todos para casa, e fui dormir, mas com a imagem de Fabio e Suzane, o quão enamorado os dois estavam.
Acordei bem cedo no domingo, e prometi a minha mãe a ajudá-la nos serviços domésticos, apesar de ser péssimo nisso. Aqui em casa é diferente, quem tem a ultima palavra é minha mãe, além disso, ela me ajudou a pagar as prestações do carro. Ela ficaria o dia inteiro se não a ajudasse, mas enquanto ela passava nossas roupas, lavei a louça, varri o chão da casa, e levei o lixo para fora.
— Pode descansar filho, você já me ajudou muito!
— Obrigado! —, disse enquanto me deitava no sofá da sala.
Mal deu tempo de recostar minhas costas, o telefone toca era o Alex me chamando para sair, como não teria nada para fazer nas próximas horas, aceitei o convite.
Então sai mais cedo de casa, afinal o lugar era bem longe no Armazém da Vila mais precisamente.
Cheguei, e logo Felipe começou a zoação.
— Olha o Mogli chegando aí! —, esse foi só o inicio da zombação sobre minha cidade. Depois começaram a me chamar de Tarzan, fazendo ruídos típicos de índio.
— Vocês têm inveja porque a minha cidade é a melhor do Brasil! —, respondi, afinal já estava começando a encher o saco as mesmas brincadeiras.
— De que adianta ser a melhor, se não tem lugar como esses para se divertir? —, respondeu Alex.
— Olha galera, vamo fazer um acordo! Vocês param com essas piadas ok?
— Brincadeira Rafa, a gente para sim, foi mals ae! —, disseram eles, mas não botei muita fé em suas palavras.
O lugar era enorme, só tinha gente bem vestida e os carrões encostados perto do local. Entre uma latinha de cerveja, e outra eles começavam a se soltar, eu tomei apenas um energético, havia muita gente jovem, e muita gata além das que estavam conosco. O show de hoje iria começar com uma banda chamada Diwali, ainda são uma banda novata, mas pelo jeito a galera já conhecia, ou pelo menos fingiam. Foi a primeira vez que ouvi, bons arranjos e a vocalista cantava bem, não desafinava, só tocaram duas músicas “Quando Você Menos Esperar” e “Melhor Assim”, mas gostei principalmente da letra de ambas, que tinham uma linguagem jovem, e de certa forma trazia um romantismo principalmente na primeira, apesar de nunca ter me sentido assim, gosto de músicas que carregam alguma mensagem, que fazem algum sentido, não importa qual o gênero, que nos fazem pensar.
Olhei para o relógio, e me espantei, já eram quase duas horas da madrugada.
— Preciso ir galera! —, disse me apressando até o local de saída.
— Ah! A mamãe vai deixar de castigo? —, disse Bruna, no tom sarcástico.
Não havia dito a eles que trabalhava, mas naquele momento estava mais preocupado em chegar em casa do dizer a eles.
Enquanto fazia meu caminho de volta, fiquei pensando no meu fim de semana, no sábado com meus antigos amigos, consegui me sentir bem, quase sendo eu mesmo, sou muito orgulhoso para contar sobre os meus segredos, mas já com os da faculdade, alem das brincadeiras preconceituosas, o ambiente não me fazia sentir bem, não estava acostumado com essa coisa de balada, as garotas que muitas vezes eu beijava eram em ambientes mais “abertos” como praia, ou eram garotas de escola, ou até mesmo as vizinhas.
Como era de madrugada a Av. Guido Aliberti estava vazia, então o caminho de casa ficou mais “suave”.
— Cheguei mãe, desculpa ter chegado tarde! —, já fui correndo gritando para o quarto, mas sabia que ela não iria dormir enquanto não ouvisse o som da minha voz.
De manhãzinha, eu e ela tomamos café, e tinha começado o interrogatório.
— Não está na hora do senhor comprar um celular?
— Ah, mãe qual, é? Você sabe o que eu acho deles? —, eu acho celular um tormento, sempre te ligam em hora errada, nunca quando você está sem fazer nada, além do mais eu estava muito ocupado esse ano.
— Bom não falo mais nada! Bom serviço, Sr. Rafael!
— Relaxa! Você sabe que eu sempre volto para os seus braços! Dona Margareth “com TH”! —, ela odiava quando escreviam seu nome errado com a letra E ao invés da letra H.
Às sete da manhã já estava na mercearia, e depois de atender algumas pessoas, Sofia vem a meu encontro e pede quatro pãezinhos. Não via ela tanto no dia-a-dia, quanto na “vida virtual”.
— Faz tempo que você não passa daqui, vai querer mais alguma coisa hoje, talvez um rolo de papel higiênico, ao invés de ficar pegando guardanapinhos de lanchonetes e restaurante? —, disse a ela com um sorriso bem sarcástico.
Ela se aproximou de mim e ficou olhando em volta da minha orelha.
— Ah! Quer sentir meu cheirinho mais de perto, acertei? —, disse com um dos meus olhares fatais.
— Nossa você esconde bem o seu barbante, só toma cuidado prá não deixar cair na frente dos seus amigos. —, disse ela com um sorriso bem inocente.
Mais uma vez ela conseguiu me deixar sem reação, então mudei de assunto tentando falar algo de sua aparência.
— E esse seu rabo de cavalo, você dorme com essa chiquinha sempre? Deve ficar com um cheiro de vinagre?
— Essa não foi uma das suas melhores ofensas, ambos nós sabemos que eu te derrubei com essa coisa da máscara, boa sorte na próxima! Obrigada pelos pãezinhos! —, disse ela enquanto andava saltitante e sorridente.
Meu chefe havia me liberado mais cedo, fui direto para a faculdade, e vi Sofia saindo de um carro, se despedindo de um garoto, não pude ver exatamente qual foi a forma de cumprimento se foi um beijo no rosto ou um selinho, mas algo inédito aconteceu comigo naquele momento, a temperatura do meu corpo esquentava rapidamente, parecia que de trinta graus, subia para uns quarenta, em menos de um segundo, sentia meu rosto soar frio, meu rosto ficando rígido.
Então, vi uma mão fazendo um movimento de cima para baixo, como se estivesse certificando-se de que eu estava bem.
— Dormiu, maninho? — disse Alex.
— E aí cara tudo certo? É nada!
— Perdeu um showzaço cara, o Exalta apareceu lá, foi uma loucura brother!
Depois de se reunir com a galera, ficamos no chamado “cinzerão”, um lugar redondo no meio do pátio, carinhosamente chamado de cinzerão.
Todos ficaram comentando como foi o show, e de que eu devia ter ficado, então quando me dei conta já era hora das aulas.
Fui apressadamente para a sala, e trombei com uma garota.
— A sala não vai sair andando não, vai com calma! —, gritava ela.
— Desculpa! —, disse quando a ouvi dizendo.
— Espera! Você deixou cair isto —, ela se abaixou com a palma da mão virada para mim, como se estivesse pegando algo. — Cuidado para não deixar isso cair hein, já te avisei! —, ela se levanta vagarosamente levantando a cabeça para mim, levantando seus olhos simultaneamente, louca para ver minha reação.
— Engraçadinha! —, disse a ela fazendo uma careta.
Enquanto a aula se desenrolava, ficava pensando sobre essa sensação que tive ao vê-la. Quase não prestei atenção na aula.
A ultima aula já tinha acabado, chego em casa e ligo o computador, entro no MSN, e fui baixar as matérias disponíveis no site.
Pisca a janelinha do MSN, com o nome Sofia.
— Olá, tudo bom? —, pergunto a ela.
— Oi tudo, e você como vai?
Depois da conversa padrão, propus algo a ela.
— Você esta ocupada agora?
— Não, pode falar!
— Estava pensando em escolher algum tema para nós discutirmos, o que você acha isso se não a estiver incomodando? —, parecia outra garota, se for comparar da fora que ela me deixou hoje de manhã.
— Imagina, não incomoda de forma alguma, que tal se falarmos de poetas? Tudo bem para você?
— Certo, mas já vou avisando novamente que não sou muito bom no assunto!
— Relaxa! Aqui alguns para começar —, então ela me manda um link especifico com diversos poemas separados por seus autores. Alguns eram de fácil interpretação, outros com palavras desconhecidas, aonde precisei de um dicionário para conseguir entender seu significado, outros confesso que não compreendi tamanha era sua complexidade.
— E então, o que achou?
— Sabe, alguns eu entendi, outros não, mas apesar destas idéias, eu prefiro colocar minhas próprias palavras, sabe treinar minha capacidade criativa ao invés de simplesmente copiar e colar uma frase bonita no Orkut ou MSN.
— Quer dizer que você, gosta de ser você mesmo?
— É, como aquela frase clássica que não sei nem ao certo quem foi o precursor, “O que vale é a beleza interior”, eu traduzo ara mim de uma forma um tanto quanto excêntrica.
— E como ficaria na sua “linguagem”?
— “Prefiro dizer eu te amo para um par de olhos, do que para uma bunda ou um par de seios”. —, na verdade sempre pensava mesmo nessa frase, ao ver comunidades do tipo “O que tem por dentro tem mais valor”, mas muitas vezes era por sacanagem, e também porque nunca disse “eu te amo” verdadeiramente.
Ela mandava mensagens incessantes em forma de risada.
— Gostei! É algo bem contemporâneo, tem um certo romantismo e atitude, mas duvido que você não repara nas belas moças que possuem estes “atributos”?
— Nem sempre, eu evito, não acho muito bacana isso, pelo menos eu não gostaria de me sentir observada se fosse uma mulher, eu tenho pensado em outra também, mais ou menos sobre essa mesma temática, sobre as pirâmides, mas tem uma falha que não consigo corrigir! —, tudo bem eu inventei essa de não ficar reparando, mas não posso dar sopa para o azar.
— É mesmo? Bom agora preciso dormir, até mais. Bjos!
— Bjos.
Então fui dormir, um pouco mais tranqüilo sabendo que não era o único que tinha essa dualidade, mas preocupado com o fato de começar a me ligar intimamente com ela.
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